Uns dias depois do fim
- Emily Luz

- 5 de mar. de 2024
- 2 min de leitura
Era manhã de algum dia de outubro, não muito consciente, meus olhos se
abriram um tanto pesados e amedrontados

Não havia ninguém em casa, como esperado, visto que morava sozinha, não havia som, não havia alegria, nem esperança, o que soava era um tom de decepção: “não deu certo”. O corpo sem muito processar os movimentos, mal conseguia me levantar, havia uma mensagem no celular, então me dei conta que estava no mesmo lugar de sempre, a mesma vida, as mesmas sensações, o mesmo caos, a mesma dor, e agora o ressoar
decepcionante de acordar.
Num sono exaustivo, um pesar no corpo, contei a quem devia. Não fui a um
hospital, apenas dormir por quase 3 dias inteiros, nos outros três apenas água
entrava no estômago, mas logo depois saía, vomitei tudo que ingeri nos dias
anteriores em todos esses dias. Não entoei um canto de alegria, nem de
esperança após despertar, apenas um questionamento ecoava em minha mente:
“por quê?”
Não é preciso ser um grande teólogo, ou um exímio cristão para saber que a vida
está nas mãos de quem a criou. Isso não era novidade para mim, mas a
obviedade eminente virou um mar de negação. Então me lembrei de orações
antigas feitas com sinceridade e confiança: “minha vida está em Suas mãos,
permaneça tua vontade e não a minha”.
Engraçado, mal a gente sabe o que fala, é como quem diz confiante sem nem
saber o que saiu da boca. Quando chega o dia de pôr a prova, a gente esquece da
confiança de outrora, nem se lembra do que tanto aprendeu durante seus
períodos de devoção, ou do que pregava num púlpito alegremente aos ouvintes
sobre a importância de descansar e realmente se lançar e entregar a vida nos
braços do Eterno. A vida nunca pertenceu ao homem, mas quem disse que a
humanidade aceita essa verdade com veemência? Pergunte a alguém, por certo
responderá que a vida é dele e dela faz o que quer, e a resposta vem de certeza
profunda. Mas quem é que pode dar vida se não aquele que a fez? E quem pode
tirar se não aquele que fez? Não que sempre descanse nessa verdade, não que eu esteja plena nessa verdade, não que eu não questione, mas tenho buscado confiar nisso outra vez.
Lhe digo a verdade, a esperança nem sempre é repentina, nem sempre aparece
nos primeiros instantes do abrir dos olhos, não vai ser instantâneo ao procurar, e
nem vai ser uma sensação boa, muitas vezes ela vai ser custosa pra sua mente,
ou seja, vai ser acreditar mesmo sem ver, vai ser confiar mesmo sem muito saber.
Os dias depois do fim nem sempre vai ter um glamour, radiante, muitas vezes
será desafiador e sem brilho algum. Eu não vi alegria nos dias em questão, mas
acredito que ela existe, não vi o sol brilhar de forma diferente, mas acredito que
misericórdia brilha continuamente junto a ele, não senti o vento de maneira
deferente, porém ele não sopra sem que o Criador o permita, não olhei pra vida
de uma maneira extraordinária ainda, mas acredito que ela é simplesmente por
não pertencer a mim. Alguns dias são melhores que outros, como disse um antigo
lamento: “Quero trazer a memória o que me traz esperança”.




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