Aconselhamento frente a Ansiedade
- Emily Luz

- 1 de nov. de 2023
- 9 min de leitura
Este artigo que segue, refere-se ao meu Trabalho de Conclusão de Curso da minha faculdade de Teologia, concluída com esmero em maio de 2023. Que faça sentido e que lhe acrescente em algo a minha pesquisa.
Boa leitura!

INTRODUÇÃO
Embora a ansiedade seja considerada o fenômeno psicológico mais difundido desde o século 20, tomando uma proporção ainda maior na era digital atual, muitas vezes não é vista como algo necessário a se dar atenção, ainda que a problemática tenha sido bastante discutida, na atualidade, ela transita entre ser considerada algo que exija muita atenção e entre algo comum.
A ansiedade tem diferentes maneiras de se manifestar e por motivos distintos também, diante de uma ameaça de perigo, autoestima, conflito, medo, necessidades insatisfeitas, traumas e etc. perceber o motivo e causa da ansiedade é importante, para que a partir de então encontre uma saída, solução para que o indivíduo aprenda a lidar com ela.
Sabendo que a ansiedade não tem faixa etária, mas pode atinge a todos sem exceção, mesmo aqueles que tem fé, ou siga uma religião, a ansiedade é indiferente a isso, porém, aos que seguem a fé cristã, encontram na palavra auxilio para lidar com a ansiedade. Psicólogos vão afirmar que a religião é uma auxiliadora importante no processo de cura da ansiedade, e o aconselhador cristão tem esse papel de auxiliar e de mostrar na palavra como os seus aconselhados podem ser ajudados ,por meio de sua fé em Cristo.
1. A ANSIEDADE NA ESFERA CRISTÃ
Por definição podemos dizer assim como Gary Collins que a ansiedade é “um sentimento íntimo de apreensão, mal-estar, preocupações, angustia e/ou medo, acompanhado de um despertar físico intenso” (COLLINS,1984, pág. 51). A partir desta definição entende-se que o sentimento pode ser aflorado mediante a dificuldades reais ou a algo imaginado onde a mente cria situações de perigo que não vieram a acontecer ainda. Diante a uma situação de perigo específico ela pode despertar de maneira assemelhada ao medo, mediante a um perigo imaginário ela transparece com uma profunda angustia e preocupação onde a pessoa sente que algo de ruim vai acontecer, mas não sabe o quê e nem o porquê.
É preciso compreender os níveis de ansiedade, e Collins (1984) vai categorizar em 2 níveis, sendo eles o moderado e o neurótico. O moderado é aquela manifestada em meio a ameaça real, e quanto maior a ameaça maior será a ansiedade, mas são equiparadas a situação vivida. A neurótica por sua vez envolve o exagero no desespero e no medo mesmo quando a situação não exija tais sentimentos, assim, se o perigo é pequeno ou até inexistente, os sentimentos de medo, angústia, preocupação são sempre maiores e exageradas, e Rollo May (1977 apud COLLINS, 1984) vai afirmar que a ansiedade neurótica é sempre desproporcional ao perigo objetivo, pois envolve conflito intrapsíquico.
A partir das definições apresentadas, percebe-se que os anseios apresentados na Bíblia não são os intrapsíquicos, mas sim os moderados, mediante a situações reais e fatuais. O termo ansiedade na bíblia são apresentados nas formas de aflição ou angústia e uma preocupação como sentimento sadio (COLLINS, 1984). No Novo testamento por exemplo o próprio Cristo vai orientar para que o seu povo não ande ansioso (preocupados) quanto a passar necessidade básicas, roupa, comida ou sobre coisas futuras, ou seja preocupações reais. A respeito da preocupação realista, Collins (184, p. 52) vai dizer:
[...] uma preocupação realista não é condenada nem proibida. Embora Paulo tivesses escrito que não estava ansioso (isto é, angustiado) com a possibilidade de ser açoitado, passar frio, fome, ou correr perigo, ele afirmou está ansioso (isto é, preocupado) sobre o bem-estar das igrejas. Este cuidado sincero por outro colocou uma ‘pressão diária” sobre Paulo e tornou Timóteo “sinceramente ansioso” (isto é, preocupado) como ele. (COLLINS. R. G., 1984, pag. 52)
As preocupações muitas vezes revelam a falta de confiança em Deus, porém não se deve considerar tudo como falta de fé ou confiança, mas deve-se avaliar tudo que há por trás da ansiedade. Na realidade atual as pessoas estão rodeadas de informações negativas, e com acesso a internet são noticias ruins a todo instante, fora as redes sociais que atravessam a mente humana de maneira ponte aguda, com comentários infelizes e relações vagas e não sadias. O cristão está inserido nesta era ansiosa, logo, não está imune nem a ansiedade moderada e muito menos a intrapsíquica.
Com intrapsíquica, considera-se o transtorno de ansiedade em sua máxima, dentro do ambiente eclesial é desconsiderado muitas vezes os transtornos psíquicos, visto que o cuidado precisa ser minucioso para não gerar crise nos afetados pelo transtorno, porém, pós período pandêmico, onde aparentemente se aumentou o discurso sobre a ansiedade e outros transtornos, os olhos foram abertos para os problemas minuciosos que o ser humano passa e que deve ter atenção dos denominados, seguidores de Cristo e principalmente dos que atuam como conselheiros cristãos.
2. ACONSELHAMENTO CRISTÃO
Por muito tempo o aconselhamento em ambiente eclesiástico restringia-se aos pastores, líderes religiosos, porém, com o passar do tempo foi descentralizada da figura pastoral, devido a demanda pastoral exaustiva e a inviabilidade de lidar com tantas pessoas e ainda aconselha-las; cabe salientar que o aconselhamento cristão abordado não se trata de mera conversa, mas um acompanhamento frequente do aconselhado mediante as suas dificuldades.
Ao contrário do acompanhamento terapêutico que desconsidera o Espírito Santo, no aconselhamento cristão ele é primordial, a respeito disso o autor do livro Práticas Pastorais vai dizer:
Os conselheiros não cristãos desconhecem o Espírito Santo e, por isso, ignoram Sua atividade aconselhadora e deixam de recorrer a Ele em busca de direção e poder. O aconselhamento cristão precisa ser levado a efeito em harmonia com a regeneradora e santificadora obra do Espírito (INTERSABERS, 2015, P. 24-25)
A esse respeito, Collins diz:
[...]o conselheiro cristão busca levar o indivíduo a uma relação pessoal com Jesus Cristo e seu alvo é ajudar outros a se tornarem, primeiramente, discípulos de Cristo e depois discipularem outros. (COLLINS, 1984, pág.12)
A partir dessas definições é preciso compreender que o aconselhamento cristão visa a vida sentimental com foco na vida Espiritual, afim de levar o indivíduo a compreender a si mesmo em consonância com o evangelho de Cristo, despertando-o para viver entendendo o cuidado e o auxílio do Espírito Santo. Dito isso, é preciso despertar os conselheiros para a importância de estar sensíveis ao Espírito santo no ambiente de aconselhamento, pois, apesar da necessidade de se utilizar de estratégia terapêutica como o ouvir, e como discernir a origem do problema para solucionar e de sugerir tarefas para que o aconselhado faça, auxiliando-o no dia a dia a lidar com a ansiedade e suas questões, o aconselhado tem a fé e a palavra para auxilia-lo.
A maior diferença da terapia para o aconselhamento cristão está nesses três auxiliares: Fé, Bíblia e o Espírito. O aconselhador se utiliza dos princípios da fé, norteado pela palavra de Deus com o auxílio do Espírito Santo. Assim é necessário que, dentro do ambiente de aconselhamento, o aconselhado entenda aos três auxiliares acima citados.
Sendo guiado pelo Espírito, é importante que o aconselhador saiba discernir o que é sentimental, espiritual e patológico, para que saiba orientar o aconselhado a como lidar com sua ansiedade, e se necessário direcioná-lo para a procura de psiquiatra para utilização de tratamento medicamentoso. E o cuidado para não ser atingido pela ansiedade do aconselhado; Collins (1984, pag. 57) alerta em seu livro Aconselhamento Cristão dizendo que “pessoas ansiosas tornam os outros ansiosos – inclusive o conselheiro que está tentando ajudar”, Collins (1984) ainda acrescenta dizendo que dentro do aconselhamento cristão, exige-se do aconselhador que fique alerta quanto aos seus próprios sentimentos, para que não seja atingido pela ansiedade do aconselhado.
3. ACONSELHANDO BIBLICAMENTE
Em meio a confusão mental, angústia que os discípulos passavam após a crucificação de Cristo e a sepultura vazia, já não entendiam o que estava acontecendo, provavelmente tomado por uma ansiedade angustiante por não saber o que esperar a partir de então, caminhavam em direção a Emaús e conversavam com o próprio Cristo a quem não reconheceram, Cristo aconselhava-os na intensão de abrir os seus olhos para lhes tirar do período angustiante (Lc 24, 17-24) e diante deste senário Albert Friesen (2016) vai utilizar-se para mostrar a importância da conversa do diálogo assertivo feito por Cristo em um momento de aconselhar os seus discípulos, Friesen (2016, p. 154) vai apontar a importância do papel de escuta de Jesus e de sua maneira de abrir os olhos dos discípulos, dizendo que:
Jesus escutou, deu atenção à aflição, à confusão emocional e mental. Deixou que falassem, que expressassem todos os pensamentos. Os discípulos apresentaram os fatos, os boatos e o que pensavam a respeito. Estava claramente implícito: eles achavam que naquele momento o sonho havia acabado; não havia mais como esperar que a libertação fosse possível; Ele estava morto! (Lucas 24: 19-24). (FRIESEN, 2016, p 154)
Aqui vemos claramente o papel de escuta que Cristo tem, deixando-os a vontade para expressar suas angustias, como se sentiam e o que pensavam. Esse é o principal papel do aconselhador, ouvir, de maneira que o aconselhado se sinta de fato a vontade para expressar suas ânsias e dificuldades, de maneira assertiva, Collins (1984) vai dizer que ao ouvir é importante que o aconselhador expresse interesses com suas expressões faciais e palavras curtas que desperte no aconselhado o sentimento de que naquele momento ele pode realmente ficar a vontade para falar a respeito de suas dificuldades.
Após ouvir tudo é importante saber o que falar e como falar, no exemplo dado anteriormente, de Jesus e seus discípulos a caminho de Emaús, Jesus não foi direto, afrontoso, ou desrespeitoso, pelo contrário, quis que os discípulos chegassem a uma conclusão por si só, por meio da reflexão. Friesen (2016) afirma que Jesus queria que os discípulos refletissem e chegassem em suas próprias conclusões. Ao contrário do que se pensa, o papel do aconselhador não é de impor coisas para que o aconselhado reflita ou faça para lidar com sua ansiedade, mas sugerir, e influencia-lo a pensar e refletir a respeito do seu problema, e com o auxílio do aconselhador chegar em uma conclusão positiva, e assim gerar atitudes a partir da conclusão. Saber ouvir é o papel principal do aconselhador cristão.
É importante ressaltar ao ansioso que o fim não é o mal, pois, para o cristão, a esperança está em Deus em quem se confia e espera pelo seu auxilio constante, não atoa Deus deixa o consolador, que guia pela esperança divina da paz plena e eterna. Bauwelz (2019) vai afirma sobre a esperança que:
Com a virtude da esperança é possível falar do sofrimento como uma realidade que pode ser superada. A esperança abre a pessoa para o futuro como uma realidade melhor, supera o fatalismo e a resignação quanto a uma forma de predestinação da pessoa ao sofrimento. Deixa-o insatisfeito e move-o na busca de realizar a sua fidelidade. Para a pessoa de fé a fonte de uma esperança melhor procede do crer no Deus que ouve os sofrimentos de seu povo amado e vem em seu auxílio. (BAUWELZ, Joanicio Fernandes. 2019)
Como bem afirma Sawyer (2009 abut LIMA, BEZERRA, 2017): “A esperança Cristã está alicerçada tanto na história quanto na experiência. E o centro da fé cristã não está orientado para o passado, e sim para o futuro. ”
O aconselhado precisa se lembrar que sua esperança está em Deus, e isso pode ser lembrado através do que Collins (1984) denominou como “encorajar uma resposta cristã” dizendo:
A Bíblia apresenta uma fórmula extraordinária específica e clara para vencer a ansiedade. Em Filipenses 4.6 somos instruídos para deixar de sentir ansiedade seja pelo que for. Como já vimos, é praticamente impossível deixar de nos preocuparmos. Um esforço deliberado nesse sentido dirige nossa atenção para o problema e, em vez de diminuir, pode aumentar a ansiedade. Uma abordagem melhor é focalizar nossa mente em atividades e pensamentos que reduzam indiretamente nossa ansiedade. (COLLINS, 1984, p 59)
Collins ainda vai dizer que uma das principais curas para a ansiedade é a oração, onde o indivíduo reafirma a sua esperança em Deus e faz suas petições a Ele, e rendendo ações de graça a Deus pela sua bondade. Outras fórmulas citadas por Collins para aconselhar o ansioso com Filipenses 4. 4-8 é encorajá-lo a alegrar-se no Senhor, lembrando da promessa que Jesus fez afirmando que jamais deixaria os seus; tolerar, pois “uma perspectiva de vida do tipo que condena produz a ansiedade; uma atitude de tolerância graciosa reduz a mesma” (COLLINS, 1984, pag. 59); pensar como instrui Paulo aos Filipenses, deixando os pensamentos de injustiça, dos problemas, fraquezas humanas, na possibilidade de coisas darem errado e pensar em tudo que “é verdadeiro, tudo que for nobre, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor” (Fp 4,8) e agir o que Collins (1984) vai dizer que a “redução da ansiedade envolve o comportamento piedoso mesmo em meio à aflição”.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Conclui-se que o transtorno de ansiedade é algo em que os conselheiros irão lidar com frequência, visto que, cada vez mais, aumenta-se os casos de ansiedade (incluindo líderes religiosos), e é necessário observar como se aconselhar o indivíduo ansioso, se prestando principalmente ao papel de escuta e de observar com clareza a dificuldade do aconselhado, afim de leva-lo a ter conclusões por si mesmo a respeito da situação e relembrando-o da esperança que se pode ter em Deus, encorajando-o a orar, alegrar-se no Senhor, agindo em consonância com a palavra de Deus. Sendo importante que o aconselhador se observe, para que não seja levado a ansiedade como o aconselhado.
REFERÊNCIAS
BAUWELZ, Joanicio Fernando. Vidas secas: uma teologia da esperança. In: BAUWELZ, Joanicio Fernando. Pessoa, lugar e esperança: teologia e literatura em vidas secas. Porto Alegre: PUCRS, 2019.
BÍBLIA. N. T. Filipenses. Português. In: Bíblia Sagrada. Nova versão internacional. São Paulo, 2001, ed 12, Cap 4, vers. 4-8
COLLINS, R. G. Aconselhamento cristão. 1, ed. São Paulo: Vida Nova. 1984
FRIESEN, Albert. O grande desafio da igreja permanecer bíblica. In: FRIESEN,
Albert (org.). Teologia Bíblica na pós-modernidade, Curitiba. Intersabers. 2016, p.123-154.
INTERSABERES, Editora . Psicologia pastoral. In: Intersaberes (org.). Práticas pastorais, Curitiba, 2015, p. 9-31.
LIMA. J. BEZERRA. C. Teologia contemporânea e seus exponentes. In: LIMA. J. BEZERRA. C. (org.). Teologia contemporânea. Curitiba. Intersaberes, 2017, p. 90-91

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