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Amigo da morte

  • Foto do escritor: Emily Luz
    Emily Luz
  • 25 de fev. de 2024
  • 3 min de leitura

"Fizemos uma amizade sincera entre idas e vindas."





Outro dia ela bateu a minha porta, não percebi de instante, mas carregava uma mala de coisas que eu já havia esquecido a tempos. Me pareceu uma visita ingênua, sem muito o que dizer, era só um aviso de que ela estava por perto. Ela começou a passar por aqui com uma frequência nunca dantes feita, a estranheza começou a trazer certo incomodo desconhecido, no fundo só pensei que era só deixá-la ir quando terminasse de falar o que bem queria e o incomodo iria embora. Ela ia, pulava alguns dias e voltava, chegou o tempo que estava tão assídua sua visita, que comecei a esperar por ela com um café passado e um biscoito a mesa, passamos a ter uma conversa longa enquanto o biscoito fazia “crotcrot” na minha boca ao prestar atenção em seus argumentos.  


Fizemos uma amizade sincera entre idas e vindas. Até começamos a ser mais profundas nas conversas, e o papo demorava cada vez mais, um café já não era suficiente, passou a ter o jantar, e nas madrugadas silenciosas ela me fazia companhia até que eu pegasse no sono. Pela manhã ela demorava um pouco pra aparecer, esperava até o almoço silencioso, ou a chegada de uma mensagem não quista de alguém em meu celular pra me dar um ‘oi’ simpático com um sorriso no rosto.  Ela era insistente, persuasiva, intimista e persistente, um “não” não era suficiente para que partisse da minha residência. Me pareceu obrigatória fazê-la ter morada permanente, devido sua insistência. Longos dias tentando vencer seus argumentos, longos dias intermináveis e cansativos.  


Conversar com ela é como andar num deserto, te deixa cada vez mais exaurido de tentar vencê-lo. É como entrar em alto mar e tentar nadar por muitas horas sem conseguir pegar fôlego necessário. É como passear em uma guerra esperando ser baleado. Às vezes é repentino, ela te chama pra bater aquele papo dentro de um ringue, quem vencer o argumento leva o título de vencedor, parece uma luta interminável, depois de tantas pausas, de tantos respiros pesados, de tantas lágrimas no tatame, de tanto suor nas mãos, sem mais argumentos, o que ela fala começa a ter sentido.  


Passei a ouvi-la com atenção, já não pensava como vencê-la, ela era mais forte do que eu, isso já estava ficando claro pra mim. Num dia qualquer ela me deu uma ideia: "  E se você pular desse prédio alto? Ou achar uma ponte alta e escondida? " Por um instante não era tão loucura assim, pena que eu tinha medo de altura o bastante pra não ser vencida por sua lábia.

Numa viajem de carro, a ideia era pular com o carro ainda em movimento, a possibilidade de vir outro da direção oposta e me atingir pareciam altas, mas eu disse que no máximo me trariam ferimento graves, mas não ao ponto de me matar, ela concordou.  Num dia específico, ela me lembrou dos remédios que tinha acesso, de que ninguém sentiria minha falta, de que a vida não estava fazendo sentido mesmo, e que excesso de medicação pode de fato levar a morte, era indolor, fácil, só teria que esperar fazer efeito. Não consegui contrapor essa ideia, me pareceu bem quista. Tão solitária, e desnecessária para o mundo ela me fez sentir, e me abandonou, sabendo o que faria.

  

Era cedo, pós chegada de uma viagem, o dia mal tinha amanhecido, já em casa, avistei os remédios, e sem pensar muito, um a um eu ingerir, enquanto o choro tomava conta, cada comprimido era uma variação da frase: “eu não aguento mais", e pós 40 e poucos comprimidos eu disse: "Deus, faz isso acabar logo!", deitei-me e só esperei. O mundo apagou. Eu apaguei.  



Se essa história lhe pareceu familiar, procure ajuda. Ser amigo dela não é uma boa escolha. Faça terapia e terá bons argumentos para vencê-la quando chamada para o debate.


Ligue: 188 - Centro de Valorização a vida


 
 
 

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